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Pipinha Blog

Ter | 07.11.17

Entrevista - "Mamã, vais morrer?" - Por Simone Pinto para o seu site "Letras que sentem"

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Surgiu o convite pela Simone Pinto, de ser entrevistada para o seu projeto "Letras que sentem". A Simone é jornalista, e anteriormente já tinha entrevistado a minha mãe sobre a doença que teve.

Desta vez é a minha parte da história contada na entrevista, tudo o que senti. Algo muito pessoal que resolvi partilhar com vocês.

 

Esta é a primeira parte, futuramente virá a segunda parte da entrevista, e irei partilhar com vocês.

 

Toda esta entrevista está no seu site "Letras que sentem"

 

Foi esta a frase mais vezes proferida por Filipa quando tinha apenas 6 anos.

Era de manhã, precisamente 09:00 horas. Ouviu-se alguém a bater à porta.

-Quem é?

Não houve resposta do outro lado da porta.

De repente tudo mudou.

“A porta da casa de banho estava aberta, e ali estava a minha mãe, em frente ao espelho a rapar o cabelo, praticamente careca.”

– O que estás a fazer, mamã?

Não houve reação, mas, mesmo sem falar a resposta chegou.

– Sou o cancro.

Passaram 2 dias e Filipa não conseguia ver a mãe. O impacto da notícia, e o não saber lidar com a nova fase da vida da mãe tomaram conta dela. Mas, dias depois, Filipa encheu-se de força e pediu ao pai para irem comprar gorros para oferecer à mãe.

Foi há precisamente, 17 anos que Fernanda Malanho descobriu que tinha cancro. Foi-lhe diagnosticado um Linfoma- Não Hodgkin na Aorta. Filipa confessa que não soube logo que a mãe tinha cancro. “Só os meus pais sabiam que os médicos davam só três meses de vida à minha mãe, eu nunca soube!

   Após ter ido com a mãe ao hospital, começou a perceber que algo errado se passava, pois não voltaram juntas para casa. Fernanda ficou internada. Filipa começou a ter noção de que algo de grave se passava com a mãe quando foi para o primeiro ano e não tinha os pais com ela, no primeiro dia de aulas. “Ia para o primeiro ano, uma nova etapa da minha vida, e os meus pais não estavam lá nesse dia. Tinha todos os meus colegas de sala com os pais a acompanhá-los, e eu estava sozinha nesse dia”.

    Filipa viu-se obrigada a crescer demasiado rápido para a idade. O pai acompanhava a mãe em todos os tratamentos e passava a noite no hospital com ela. Já, Filipa viu na avó paterna o abrigo necessário durante esta fase.

Um soldado inimigo que responde pelo nome de cancro preparava-se para pôr termo à vida. Mas, a vida saiu vitoriosa desta batalha. Fernanda, 17 anos depois da descoberta da doença, vence-la e encontra-se estável.

Filipa, hoje aos 23 anos, recorda esta fase como a fase mais difícil da vida dela “É uma doença que me marcou, não na primeira pessoa, felizmente, mas por ver alguém que amo passar por essa situação.”

A inocência da idade de Filipa, e o amor de mãe levou a que Fernanda Malanho pensasse que não estaria cá para contar a história à filha: “A minha mãe chegou a pensar escrever uma espécie de diário para mim, onde mais tarde, se as coisas não tivessem corrido bem, e ela não estivesse cá, eu ir lendo”.

Filipa confessa que tem uma relação muito próxima com a mãe e vê nela um exemplo a seguir. “Quando for mãe, quero ser tão boa mãe como ela tem sido para mim”.

Filipa realça a importância de Portugal investir em mais equipamentos para o tratamento e cura do cancro, e deste modo, preocupar-se mais com a saúde e suportar algumas das despesas de quem, por vezes, não tem muitas possibilidades para o fazer.

Filipa deixa um conselho a quem luta para derrubar este inimigo de seu nome cancro: “Deus dá as batalhas difíceis aos grandes guerreiros, aprendi isso com a minha mãe. Agarrem-se à vida, aos que amam”.

O Cancro nem sempre é hereditário, o que faz com que Filipa não pense muito na possibilidade de vir a enfrentar este inimigo.  Mas, confessa que tem medo não do cancro, mas de perder quem mais ama. “O meu maior medo é perder quem amo. Quando falo em perder, falo na morte. Talvez por já ter tido tanto receio que isso acontecesse com a minha mãe, virou medo.”. "